
Na contramão deste estrada, a arquiteta e artista plástica Carmen Garrez, gaúcha de origem, residente em Pelotas, engendrou um universo especial, catártico, diametralmente oposto a esse que nos proíbe de pensar, ouvir. E surpreende pela 0usadia, principalmente em se tratando de uma artista iniciada na arte primitiva, em cujo meio foi premiada, tendo realizado também inúmeras coletivas e individuais.
Na nova fase, Carmen distorce a figura humana, tornando-a um ser ambivalente, carregada de significados ocultos, remetendo-nos a um universo surpreendente, nada parecido com o mundo que se despreende da televisão, lobotomizando os incautos. A organização é anárquica, absolutamente catártica, ossatura realmente instigante.
As telas, em acrílico, são imensas (a menor tem 100 x 80 cm), de cores fortes, contrastantes, trazem do nada avantajados rostos de mulheres, lábios fartos e vermelhos, grandes seios à mostra - flagrante crítica à cultura do silicone - ou do melão?
Os homens identificados tendem a androgenia, respirando num espaço aparentemente rarefeito, perdidos ao meio de animais serpentinos, apêndices ante-diluvianos, os quais dão motras de querer escaparem das telas e nos abraçar fortemente.
Não bastasse isso, deparamo-nos com grandes olhos negros, hipnóticos, que têm a missão de nos seguir onde quer que vamos. Carmen Garrez, com esta obra, se insere no time dos grandes artistas, cujo trabalho visa detonar o mundo da fatuidade, do óbvio, da caretice que virou tradição. O que tem valor, enfim, não é tã0-só aquilo que agrada ao nosso olhar, sobretudo é a força que revolve nossa alma.
Carmen, tradicionalmente uma artista primitiva, cuja fase anterior reproduzia a realidade à sua volta, levando o espectador a uma compreensão exata da obra. Na nova fase, busca passar a mensagem não tão direta, mas de inconsciente para inconsciente.